Nas entranhas de Lisboa

Este é para ler ao som do tema “É terça-feira”, cantado pelo Sérgio Godinho…
É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
da madrugadaE a rapariga
desce as escadas quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender juras falsas
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradiçõesÉ terça-feira e das cinzas talvez
amanhã que é quarta feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
tanto faz
parte para a guerra
com os olhos na pazÉ terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotadaE a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegriaE todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradiçõesÉ terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega
Utilizei o título “entranhas de Lisboa”, pois é mesmo isso que me pareceu quando hoje cheguei à zona da Feira da Ladra, mesmo sem me lembrar que era terça-feira. Entranhas, no entanto, parece uma coisa feia. Mas feia, é talvez apenas a minha opinião sobre esta zona de Lisboa. É tudo muito apertado, confuso e com um ar suspeito, sempre foi uma zona da “minha terra” de que nunca gostei, até porque as recordações que tenho não são das melhores. Seja como for, não estou com isto a dizer que é feia, nada disso. A minha visão é que é. A Feira da Ladra é um local confuso, cheio de gente e tão depressa estou curioso com muitas das coisas que se vendem por ali como estou a pensar que ainda vou ser assaltado. É confuso. Toda a polícia que por ali pára também não inspira muita confiança, se eles estão ali, é por algum motivo. Seja como for, passei por lá, ainda tive a hipótese de passar em frente ao majestoso Panteão Nacional e junto de outros locais tão interessantes e magníficos, mas que parecem completamente escondidos neste emaranhado de ruas e becos, que acabou por me “despejar” junto à Estação de Santa Apolónia quase sem me aperceber. Mais uma tarde diferente…




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